O Oceano Atlântico: 106.400.000km² de saudade, um quinto de superfície da Terra de ansiedade.
Os barcos levam meses para cruzar essa imensidão azul, os aviões levam em média 12 horas... meu amor leva milésimos de segundo e faz várias viagens durante o dia.
Dizem que o Oceano tem o formato de um S, o mesmo S que escreve "saudade", o mesmo S que escreve "Será?", o mesmo S que escreve um angustiado "socorro".
Nesses nove meses dos doze que se completarão dentro de alguns dias, o Oceano me trouxe, em pequenas garrafas, várias respostas, me trouxe inúmeras perguntas que me assombram a mente até hoje, mas também trocamos diversas mensagens de amor.
Quando os pensamentos se cruzam, quando coincidentemente pensamos na mesma coisa durante dias tão diferentes na Europa e no Brasil, quando a conversa é tão boa, que parece que estamos na mesma mesa do bar, quando os corações estão perto, batendo no mesmo ritmo (às vezes até dói), quando as pessoas que amamos invadem nossos sonhos, o Oceano fica do tamanho de uma pocinha d'água, me dando a ilusão de que se eu der um pulo mais larguinho, chego do outro lado. Às vezes, parece tão simples, uma sensação de que se eu pegar o ônibus 46A, chego em São Paulo.
Mas se você aí demora, quando vai embora, quando por algum motivo me ignora, o oceano... se multiplica por quatro, o Atlântico se junta com o Índico, acabando com meu mundo Pacífico e transformando meu coração num Ártico.
Dias desses, andei pelas ruas chorando minha angústia, passei pela beira do rio, e pela primeira vez eu talvez tenha entendido por que aquelas pessoas param seus dias para sentar-se à beira do Liffey para fazer absolutamente nada a não ser observar o curso da água. Talvez, elas estejam como eu, querendo enviar alguma mensagem à alguém, que está em alguma ponta deste Oceano esperando por respostas. E ali eu parei também.
Está chegando a última semana da casa dos 20, a partir de então, minha contagem passa a ser na casa do "décimo", dezenove semanas, dezoito semanas, dezessete...
Muitos exploradores cruzaram o Oceano em busca de descobertas, eu cruzei para descobrir a mim mesma, e agora quero cruzar de volta para descobrir como será a vida com um "novo eu".
Cheguei no ponto em que: f*deu.
Devo ter caído no poço, ficado tonta com meus sentimentos.
Eu só sei que sinto, e que é forte, porque me dói o peito.
Às vezes eu me esforço para parar de sentir, e sinto mais.
Mesmo sabendo que não devia, eu fui atrás, e ao invés de encontrar as respostas, mais perdida ainda eu fiquei.
Levei as mãos a cabeça e ali fiquei um tempo, sem entender, sem saber no que pensar. Meu cérebro ficou vazio por um instante, mas cheio de coisas ao mesmo tempo.
Escrevi um rascunho de e-mail, tanto que eu queria dizer. Mas sem saber se devia dizer, não é hora, não é certo, não é o momento.
Mas eu queria explodir, queria que o mundo soubesse, queria embarcar, só não queria ter esse medo de me arrepender depois.
Eu nunca fui uma pessoa de ter "inimigos", mesmo que houvessem pessoas com quem eu não me desse tão bem, nunca usei isto como um motivo para tratar pessoas mal... mas não é todo mundo que tem a cabeça assim...
Dizem que gentileza gera gentileza, dizem que gera gente lesa. Às vezes sim, às vezes não.
Largando tudo pra trás (na teoria), e vindo para uma terra onde boa parte dos imigrantes estão sozinhos e dependem de um pouco de gentileza, eu aprendi algumas lições importantes sobre essa questão.
Gentileza gera gentileza, quando se tem um coração bom. Pra mim, gentileza é uma grande corrente que precisa ser levada a frente. Trabalhando como garçonete pra viver em Dublin, eu consegui perceber o quanto aquelas pequenas gorjetas fazem diferença na minha vida, é um pouco hoje, um pouco amanhã, um pouco depois e no fim da sua semana aquilo já garante umas duas semanas de supermercado. Um gesto de gentileza que veio em retribuição a sua própria atitude de tratar uma pessoa gentilmente, como, a princípio, qualquer pessoa merece ser tratada.
Depois disso, resolvi passar as boas coisas que aconteciam comigo para frente, e desde então, em qualquer lugar que eu paro pra comer, deixo um troco ao garçom, que junto com outros trocos, no fim do mês pode virar uma conta de luz paga.
Conheci um rapaz aqui que não dava gorjetas em restaurantes, mas sempre deixava o troco com o taxista, por o pai dele exercer a mesma profissão. Desta forma, não quero instaurar que todos sejamos a nova Madre Teresa, mas creio que se cada um, de alguma forma, passasse a tratar a vida de forma mais gentil, cada um do seu jeito, várias correntes de gentileza podem correr o mundo. Um dia, aquele garçom do restaurante que comi semana passada, pode vir tomar um cappuccino na minha cafeteria.
Mas gentileza também pode gerar ingratidão... nesta terra onde é preciso a aprender a correr atrás de tudo sozinho, mas onde qualquer ajuda é bem vinda, o sucesso pode subir à cabeça, e a gentileza de hoje pode se tornar amnésia de amanhã, as pessoas podem tratar com indiferença, quem um dia lhes estendeu a mão...
E quando essa pessoa cair de novo e precisar da sua mão novamente... você vai estender? Talvez essa seja uma lição que eu esteja começando a finalmente aprender. Meu coração molenga abre os dois braços na hora, mas vivendo sozinha aqui, fiz um novo amigo: a minha razão, e ela tem me ajudado a entender que a gente não deve sempre estender o braço antes de garantir que temos força o suficiente para nós mesmos primeiro, e que às vezes é preciso passar um tempo no chão para entender a diferença que aquele braço um dia fez na nossa vida e podermos aceitar uma nova ajuda com mais gratidão. Todo mundo vai precisar um dia.
Continuo a não negar minha ajuda a ninguém, pois eu sei que o mundo dá voltas, mas se você um dia me deixou afogar, eu não te darei mais meu salva-vidas antes que eu esteja a salva num barco seguro.
"Fácil pra você dizer, que seu coração nunca foi partido.
Que seu orgulho nunca foi roubado.
Ainda não, ainda não...
Um dia destes, eu aposto que seu coração será partido,
Eu aposto que seu orgulho será roubado.
Eu aposto,
Um dia destes...
Você esquecerá de ter esperança e aprenderá a temer."
Comprei.
Comprei, não pensei e comprei.
Depois eu penso...
O cartão estava ali e comprei.
Depois olho o saldo, depois faço as contas.
Comprei como se já fosse semana que vem.
Comprei e já me deu vontade de fazer as malas, de juntar dinheiro, de fazer o roteiro.
Puta merda, comprei!
Agora ao mesmo tempo em que os dias parecem passar como uma contagem regressiva, eles nascem me trazendo uma necessidade urgente de aproveitar ao máximo!
Comprei sem conversar com ninguém, sem saber se é a coisa certa ou não.
Mas afinal, sabia eu se vir para Dublin era a coisa certa? Quantas vezes não me questionei antes de chegar??
Depois... O que será que tem no depois?
Como eu estarei no depois?
Será que eu mudarei daqui há alguns meses quando o depois chegar?
Será que continuarei querendo as mesmas coisas no meu desembarque do que quero agora?
Vocês podem não estar entendendo... Comprei minha passagem de volta para o Brasil. Sem volta. Um trecho apenas. A vida ainda tentou me dar um "peraí"... me obrigando a escolher uma data de retorno à Dublin, mas lá no cantinho, eu finalmente achei, bem pequenininha a opção "One Way".
Minha experiência aqui já é transformadora, meu Deus, tantas coisas que mudaram, tantas que se reafirmaram, que loucura. Mas, eu preciso voltar para certas coisas.
Quando resolvi fazer essa viagem, pensei que não tinha nada que me amarrasse no Brasil. Mas aqui, descobri que tenho mais amarras do que imaginava... ainda bem que são amarras de amor (eu espero).
Quando saí do Brasil, deixei braços estendidos sentindo a falta que eu faria. Os braços continuam abertos, aguardando meu abraço e me puxando pra perto deles a cada dia que passa.
Eu comprei, são quase 2 das manhã, noite de Lua Cheia no portal de Leão. Não deve ser em vão. Aqui nesse coração acelerado (que deve estar batendo no mesmo ritmo do Heavy Metal que estou ouvindo), eu sinto... tem uma vida maravilhosa me esperando lá. Eu sei! Não existe outra possibilidade.
Foi pensando nisso que eu... comprei!
Sempre fui o tipo de pessoa que conhecia alguém e já imaginava o nome dos filhos, ou que já planejava todas as coisas que iria comprar antes mesmo do salário cair. Pior ainda, sempre fui aquele tipo de pessoa que mandava uma mensagem já pensando na resposta e sabendo a tréplica que eu daria! É capaz de eu já ter imaginado mil diálogos com você aí que tá lendo e você nem imagina.
...E o que sempre acontecia? Nada do que eu havia planejado!
Uma vez, estava saindo com um cara havia um tempão... tipo, muito! Mais de um ano! Surgiu a ideia de fazermos algo juntos e eu tinha ficado de pensar; no dia seguinte, me decidi a ir, planejei tudo e... quando falei com ele... ele disse que era melhor pararmos de sair. A única alternativa que eu não tinha pensado.
Mas nem sempre era algo ruim (só na maioria), convidei esse mesmo rapaz para minha festa de aniversário, assim... por consideração/educação, ele não me confirmou nada e apareceu lá, sozinho sem conhecer ninguém, e disse que estava muito feliz em me ver naquele dia <3 awwnnn...="" p="">
A questão que quero levantar é que a vida tem uma tendência muito forte em me quebrar as pernas, me surpreender e me fazer lidar com uma situação que não estava entre as 430 alternativas que eu jã tinha pensado; O que não é ruim! É ótimo para uma pessoa como eu que adora desafios, e mostra que a vida pode mudar a qualquer momento... mas a parte ruim disso é que passei a ter um certo medo de sonhar...
Medo de sempre imaginar coisas maravilhosas e acabar quebrando a cara.
Tive uma fase então, de tentar pensar em alternativas ruins para os meus sonhos, pra tentar me forçar a me surpreender com qualquer coisa boa que viesse a acontecer, mas aí veio o medo de atrair coisas ruins através do meu pensamento "negativo". Já passei por uma fase paranoica em que gostava quando eu "morria" no joguinho, porque falta de sorte no jogo é sorte no amor.
A verdade é que é difícil controlar minha mente sonhadora, meu coração amoroso que se acelera agora. Nasci para pensar pra frente, talvez essa seja uma das razões pela qual minha cabeça seja um pouco mais além da minha idade... minha vontade de ver o futuro acontecendo logo.
Hoje eu não te digo que tenho os pés mais no chão, tenho mil coisas que sonho pra mim, já me imaginei nas mais diversas situações, tenho diversas expectativas pro futuro, mas quando me vejo mergulhada demais no meu sonho, sorrindo ou chorando por algo que nem aconteceu, e eu nem sei se vai acontecer, tento me distrair, fotografo as flores, troco a música... e tento pensar na beleza que a vida é hoje... só sonho que o futuro seja igualmente bonito. <3 p="">
3>
"Um pouco de pressa, querida
Para sentir-se tonto, para inviabilizar a mente de mim
Basta um pouco de silêncio, querida
Nossas veias estão ocupadas, mas meu coração está em atrofia
Ontem, uma das minhas inspirações veio me visitar para um encontro que não estava previsto, que acabou com qualquer possibilidade de deixar este assunto enterrado nos meus vinte e quatro, muito pelo contrário, só trouxe águas novas para rolar e muitas perguntas a serem feitas nos vinte e cinco.
Eu, que estava tendo um dia tranquilo, de repente cantava e ria mais que o normal das piadas bobas que eu assistia pelo computador.
"Céus, acho que estou alegre demais, não consigo disfarçar pra mim mesma."
Como nos velhos tempos, ajeitei minha maquiagem (seria nosso primeiro encontro depois de tanto tempo, não apareceria de qualquer jeito, né mores?) ao mesmo tempo em que a minha visita se dirigia até nosso encontro, e parece que o oceano ficou do tamanho de uma poça d'água; a mesma que dá cara ao inverno de São Paulo e anuncia que o verão em Dublin está nos seus últimos suspiros.
Uma sensação muito estranha de que seria tudo da mesma forma, que sairia de casa e as ruas de São Paulo estivessem do lado de fora do meu portão.
Quando nos encontramos, o sono foi embora. Risadas, piadas sem graça, lembranças, esclarecimentos, algumas frases que escaparam e responderam várias perguntas e... alguns segundos de constrangedor silêncio vieram. A minha sorte é que no Skype eu preciso olhar para a câmera, olhar nos olhos naquela situação, além de me deixar com uma cara de idiota na tela, me mataria (assumo).
Também veio uma vontade enorme de ficar a sós, mesmo que nada tão proibido fosse ser dito, mas estamos em um encontro aqui, com licença!
- Acho que esse encontro me ajudou a me acalmar.
- Acho que não, acho que você vai querer encontrar sempre.
- É o que você acha, né?
- Sim.
- Mas é algo que você não quer...?!
Será? Acho que a resposta veio ao cair da noite.
"How do you feel? That is the question.
But I forget, you don't expect an easy answer.
...
You can't expect a bit of hopes.
So while you're outside looking in,
describing what you see,
Remember what you are staring at is me.
...
How much is real? So much to question.
An epidemic of the mannequins,
contaminating everything,
when thought came from the heart."
Depois que o encontro acabou, olhei para o chão e lá estava toda a minha armadura desmontada, minha capa que me torna intocável também estava lá, eu era exatamente a mesma pessoa que não conseguia levantar a cabeça pra conversar há pouco mais de um ano atrás.
Fui dormir, digo... fui deitar. a frequência das batidas no meu peito e dos pensamentos na minha cabeça não me deixavam dormir... uma música talvez? Vocês sabem que Shuffle Player é uma coisa do capeta, só toca aquelas músicas pra aprofundar ainda mais o seu humor, até que você por vontade própria acaba só ouvindo aquele tipo de música.
"But I can't explain just how I feel.
Out of my heart and into my soul."
Sei que me encolhi num canto da cama até que pudesse caber perfeitamente outra pessoa lá, me virei pro lado vazio e ali eu beijei o ar na minha imaginação, e senti o beijo, e senti o abraço, e ali eu adormeci.
Hoje.
Hoje acordei e não pensei em nada daquilo que tinha acontecido ontem, então dei por mim que já tinha passado, mas sentei para começar a escrever este texto, lembrando de todos os que larguei pela metade por preguiça de levantar da cama pra escrever, e ao começar a escrever o texto,subiu um pequeno arrepio do dia anterior, mas passou! Só que no decorrer do dia, me pegava sorrindo sem motivo (com motivo), e agora ao digitar essas palavras, me coça a garganta.
Eu penso se isso vai se repetir, se não é uma recaída boba, se vai acabar, quando vai acabar, como vai acabar.
Amanhã.
Amanhã eu não sei, não sei quanto tempo vai levar para chegar o amanhã, quando eu dei por mim, já era o dia de embarcar para Dublin, os primeiros seis meses passaram-se como um flash, e eu aqui pensando que já é quase Agosto, próximo mês já é Setembro, depois já é Natal e hora de voltar pra casa.
Eu não sabia o que me esperava ao vir pra cá, continuo não sabendo o que me espera para voltar. Mas talvez, numa partezinha da minha cabeça, nessa mesmo que está doendo agora, esse cantinho do lado esquerdo, eu tenha uma leve ideia do que eu queira que aconteça.
"Between me and you...
I've been thinking about the future and..."
Desde o dia em que completei meus vinte e quatro, a vida tem sido uma assustadora contagem regressiva para os vinte e cinco.
Vinte e cinco. Serão dez anos desde que eu tinha quinze, que eu começava a me entender por jovem, e tanta coisa que eu poderia ter mudado desde lá.
Penso em tanta coisa que já mudou, no quanto eu já mudei, em como passei da garota boba que era zoada na escola por ter cabelos cacheados a uma mulher madura (poderia ser menos) com incríveis nove anos desde seu primeiro emprego (o que me orgulha muito) e que sai desfilando sua jubona enorme por aí.
Vinte e cinco anos, um quarto de século, que idade mais estranha... Parece um número tão grande e tão pequeno ao mesmo tempo... Por um lado, sinto que devia ter feito tanta coisa que deixei de fazer e agora já não tenho mais tempo. Por outro lado, penso em todas as milhares de coisas que quero/preciso fazer antes que cheguem os trinta (agora é um caminho sem volta, né migos?).
Vinte e cinco anos e lembro de cada coisa impublicavel que fiz nos últimos dois anos e que me fazem pensar em como um ano é suficiente para se fazer valer a pena, para se provar de tudo, ou para se mudar uma vida. Vinte e cinco e eu penso na pressão que a sociedade faz sobre a minha condição de mulher aos vinte e cinco: "Já está na idade de casar", "não pode ter filho muito velha", "já tem que começar a usar creme anti-idade", e isso tudo por um momento me faz pensar que tenho tão pouco tempo para tudo isso, mas depois... só penso no quanto sou jovem ainda aos vinte e cinco para encher minha cabeça com esse monte de besteiras.
Vinte e cinco e tudo o que eu quero é deitar no parque e ouvir a minha música, vinte e cinco e eu tenho uma lista de shows de rock para ir até o fim do ano que me motivam a trabalhar só para comprar ingressos como uma adolescente rebelde.
Vinte e cinco e eu só penso em como eu me imaginava aos vinte e cinco quando tinha quinze, e como eu não fiz metade do que planejei, como a vida vem sendo uma descoberta a cada dia, o que me faz chegar aos vinte e cinco sem a menor ideia do que esperar do futuro, mas com os braços e a cabeça muito mais aberta do que eu tinha antes.
25 anos, Leonina, Paulista e Paulistana morando na Irlanda, já com saudades de casa e dos amigos, em contagem regressiva para voltar. Apaixonada pela cidade pela vida, pela noite, pela música, pelas pessoas.